3 de mai de 2015

O instagram não é o vilão


Foi decidido que geração Z é composta por um bando de narcisistas que adoram apontar a câmera do celular para qualquer lugar e fingir que são artistas. 
Os membros dessa geração tem o mundo nas mãos – literalmente. Eles estão dando seus primeiros passos na vida com todas as facilidades tecnológicas criadas nos últimos tempos: o smartphone que traduz placas, mostra como chegar aos lugares e qual horário passa o próximo ônibus para casa. Tem a liberdade de criar e discutir e pesquisar e informar mexendo apenas os dedos e, talvez, os cotovelos. Foi com a facilidade de interagir em qualquer lugar que essa geração colocou uma placa na própria testa: eles acham que podem ser qualquer um.
Eles acham que podem ser escritores, desenhistas, fotógrafos e qualquer tipo de artista. Podem ser chefs de cozinha também. Eles acham que usar qualquer rede social para exibir o que quiserem, o que os ajudar a inflar ainda mais o ego já inflado. Eles acham que uma visita no oráculo Google soluciona tudo e os ajuda a conquistar o que for que estiverem tramando (com o objetivo, obviamente, de inflar o ego inflado).
Mas deixa eu contar uma coisa para você:
Eles estão certos.
O instagram não é vilão. Nunca foi, também não será. Com suas Clarice Lispectors adaptadas e filtros que disfarçam detalhes, a rede social da câmera colorida nada mais é que o informante do que passa na frente de qualquer pessoa. E ainda sendo mais audaciosa: instagram é o que está transformando uma geração de simples passageiros para grandes observadores. Se a razão é uma foto ou não, isso não importa.
Antes, as pessoas cruzavam por placas, grafites, panfletos e quisá viam símbolos do próprio idioma. Hoje as pessoas param para ler se o que está ali não é uma mensagem que ganhe likes. Pode parecer ridículo, mas isso seria julgar os fins sem considerar os meios. Alguém escreveu, alguém leu e quis transmitir. Muito provavelmente é uma mensagem que valha a pena ser compartilhada, por qualquer razão boba que talvez não seja boba para quem viu. Para quem curtiu, também. Não importa se tem trocadilho genial, se é de um escritor conhecido ou um dos restantes “não vai ter copa” que ainda não foram apagados dos muros (meus favoritos, a propósito): é uma mensagem. São palavras e sua função é ser transmitida. Tá errado?
O mesmo vale para os fotógrafos profissionais de céu. Isso é feio? Ver mais cores do que o azul de tudo dia e achar que vale o registro? Ou então ver o mesmo azul, mas acreditar que ele está tão bonito aquele dia que precisa ser guardado na infinidade da internet? Deixe-me perguntar: você costumava ver o céu todo dia? Admirar a beleza misteriosa da imensidão?
Você percebia as passagens por onde andava? Você já tinha visto aquele lago escondido entre algumas arvores que as refletem dependendo da posição do sol? Você já tinha visto como é legal o modo como a luz incide sobre qualquer coisa ao final do dia? Você já tinha reparado que várias árvores alinhadas podem parecer cenário de filme de suspense com o filtro certo? Você já tinha percebido a rapidez que as nuvens mudam de forma e como precisa de agilidade para registrá-las enquanto ainda parecem um personagem de Hora da aventura?
As famigeradas selfies,que criaram um novo mercado com seus paus de selfie e consolidaram uma nova geração de pessoas que gostam de uma câmera frontal, também são um caso encarado errado. Vamos esclarecer que quando você vê um rosto no feed, não é apenas mais uma pessoa; É autoestima. O vilão instagram ensinou brincar com ângulos e gostar do que se vê no espelho. O vilão instagram aceitou que você mostrasse seu rosto sem precisar de alguém dizendo pose, mexendo no seu cabelo ou virando seu nariz para ficar numa posição favorável. Você aprendeu a fazer isso! Sozinho! E se está mais narcisista com isso: parabéns, você é uma pessoa a menos na fila que vai chorar por pena de si mesmo. Isso é muito bom, acredite!
O instagram aproximou as pessoas, guardou lembranças e criou memórias, criou visões. Pode até se dizer que a rede social é o antro de pessoas que sempre estão felizes, com ênfase, erroneamente, no “sempre”. Permita-me corrigir e mudar a palavra chave dessa sentença: felizes. As coisas parecem melhor com um filtro aqui e ali. As coisas parecem mais legais com um sol nascendo, com comidas gostosas cheias de morango e nutella, com fotos de sapatos tocando a grama ou pés descalços na área. São coisas que você via, mas que agora enxerga.

Se o instagram é vilão, eu quero ser a Rainha Má.

Um comentário:

  1. Uau, que texto incrível!
    Tô no terceiro ano e tive uma proposta de redação relacionada a isso. É um tema muito interessante, e nunca tinha visto por esse ponto de vista. Sério, tô meio chocada... Principalmente quando você falou sobre a geração de observadores. Acho que posso refletir mais sobre isso.

    Clara
    @clarabsantos
    clarabeatrizsantos.blogspot.com.br

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