3 de mar de 2015

Cinquenta tons de abuso lapidado


Essa é a quinta vez que começo essa crítica. Provavelmente é a décima segunda, considerando as que fiz mentalmente e não anotei no papel. Eu simplesmente não sei o jeito de começar. Que tal assim: eu venci. Não consigo pensar em expressão melhor para definir meu sentimento de mérito por ter assistido Cinquenta tons de cinza até o final

Cinquenta tons de cinza é a história do cordeiro que se apaixona pelo lobo. Sim, aquele lobo e aquele cordeiro. Quando dizem que a história é um Crepúsculo para maiores, vai além das ligeiras semelhanças características de uma fanfic. É a essência de um refletido no outro. É tão absurdamente parecido, em tantos âmbitos diferentes, que passei duas horas esperando Christian revelar que era um vampiro - a única coisa que, veja só, faria aquele enredo ganhar o mínimo de coerência na minha cabeça. 

Posso falar na real? Degradante, ofensivo e insultante. Eu me recuso a acreditar que um relacionamento tão abusivo quanto o representado seja vendido como uma das maiores histórias de amor da nossa geração. Se isso é sinônimo de casal saudável, eu quero ser a tia solteira dos gatos, obrigada de nada. 

Ao meu ver, o problema nunca foi Christian ser rico e Anastacia ser virgem. Não vejo isso como um paradigma machista por si só. É só quando aliados com outros elementos e as personagens "cativantes" dos protagonistas, que o problema se forma e tudo aquilo chega ao ápice do erro.

Quero ilustrar isso como uma cena maravilhosa que representa exatamente o que quero dizer. Christian e Anastacia estão jantando com a família dele. Ao ser perguntada de seus pais, Ana comenta que a mãe mora na Georgia e ela vai visitá-la no dia seguinte. A reação do parceiro? Um surto. A brilhante frase "You're mine. You're all mine.". Nessa parte eu cheguei a pensar que o próprio diretor estava zoando a história, pois não existe imagem mais retrógrada que o cara colocando a mulher sobre os ombros, o que Christian faz. Isso, meu amigo, é pré história. Isso é homem das cavernas. Isso é romance nesse século, sério?


E eu não quero entrar no mérito de julgar os hábitos sexuais de Christian, tanto faz o que ele gosta, faz ou deixa de fazer entre quatro paredes. O problema não mora aí, por si só. Ele surge quando Christian induz Ana no seu quarto vermelho da dor de maneira egoísta e pouco consensual. Por mais que ela tenha curiosidade, não dá para apagar o fato de que ela não apenas é virgem, como inocente feito uma criança. Então do nada ela conhece esse cara, que começa a surgir no seu dia a dia de um modo nada stalker e zúper casual, ele apresenta sua coleção de chicotes e diz que vai usar nela para, principalmente, dar prazer a ele. OI? OLÁ? Então você está me dizendo que está introduzindo uma garota a sua vida sexual dizendo que o principal objetivo dela é lhe dar prazer? Que são as suas vontades as mais importantes? CARA! Eu sei que esse é o conceito de submissa, mas é muito errado a forma como isso é colocado, como Anastacia é empurrada para essa situação. Empurrada com um apartamento nov... Mas oi? O que? Eu não estou querendo dizer nada com isso, afinal, ela é uma moça cheia dos princípios!...

Mas eu não quero fazer do filme de todo ruim. Ainda acho a ideia do enredo ridícula, mas salvo algumas coisas na adaptação. Basicamente, tudo que foi acrescentado além do livro, está de parabéns. Tudo que veio de novo, foi bem vindo. 

Cinquenta tons de cinza é um filme muitíssimo bem produzido. Como um todo, ele foi muito bem dirigido e editado. Por incrível que pareça, esse é um filme de muito bom gosto - talvez por se esperar justamente o contrário. Há até uma brincadeira com a cartela de cores, como, por exemplo, na primeira cena, que se parar para contar, é bem possível encontrar cinquenta tons de cinza. A trilha sonora, então, é maravilhosa. As músicas são envolventes e evocativas e muito bem colocadas. A versão de Crazy in love? APLAUDINDO DE PÉ.

Ao final, a impressão que eu tenho é que a equipe se esforçou ao máximo para fazer dar certo. Talvez, quem sabe, com sorte, eles conseguiriam apagar a essência machista que permeia a história inteira e Cinquenta tons de cinza poderia ter conquistado quem, como eu, não consegue defender amigo nenhum nesse enredo. Algumas tentativas foram muito válidas para tal: a força que Anastacia ganhou em alguns momentos, como a cena do contrato, como a cena final que me surpreendeu verdadeiramente em mostrar que ela sabia falar sem parecer estar sussurrando. Quando ela está bêbada e liga para Christian, foi tão a melhor parte que eu quase desejei defendê-la. Sem falar que estar livre de sua deusa interior já é uma benção.

O filme é uma lapidação do livro. O caso é que, por mais que se tente e invista, não é possível encontrar brilho numa pedra. Cinquenta tons de cinza, o filme, está em sua melhor forma. É, sem dúvidas, o melhor que se poderia fazer tendo base aquele livro. Então, por mais que eu tenha gostado disso aqui e ali, o sentimento final foi de aflição e agonia por um relacionamento unilateral e humilhante. Entretanto, se não houver continuações (o que duvido), pelo menos podemos dizer que uma mensagem razoável foi passada nos segundos finais. Isso conta para alguma coisa?

3 comentários:

  1. Eu não li o livro e nem assisti ao filme. Porém, pelo que eu pesquisei sobre a história, eu concordo plenamente com a sua opinião, em todos os sentidos. Eu acho muito parecido com Crepúsculo e tem momentos enquanto eu assistia o trailer que eu ficava esperando ele dizer que era vampiro mesmo. as frases são tão vergonha alheia que chegam a ser engraçadas e eu também acho ridículo a protagonista ser tão submissa. Mas tenho que reconhecer que o filme foi bem produzido e que a trilha sonora é maravilhosa. Mas não sei se isso me faria querer ver o filme, talvez um dia. hahaha
    Mil Beijos!
    http://pensamentosdeumageminiana.blogspot.com.br/

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  2. concordo totalmente com você, principalmente no paragrafo que você disse: "Eu me recuso a acreditar que um relacionamento tão abusivo quanto o representado seja vendido como uma das maiores histórias de amor da nossa geração. Se isso é sinônimo de casal saudável, eu quero ser a tia solteira dos gatos, obrigada de nada."
    achei o filme ridículo neste aspecto. quase dormi no cinema, sério!
    achei ele machista demais, um romance muito sem noção e o cara totalmente aproveitador. na verdade ela também é bem espertinha né, porque acaba ganhando várias coisas do bonitão lá e faz de conta que está tudo bem hahaha
    sério, desde que eu vi o filme no cinema estava doida para ler sua resenha dele! kkkkkkkk

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  3. Queria imprimir esse post e colar em todos os postes da minha cidade porque você falou TUDO, repito, TUDO que eu sempre converso com as minhas amigas quando o tema é 50 shades of abuse.
    "Se isso é sinônimo de casal saudável, eu quero ser a tia solteira dos gatos, obrigada de nada." amém.
    O fato de a Anastasia ser virgem não só sexualmente, como também de conhecimento a respeito de tudo que envolve o universo do Grey, e ser empurrada tão abruptamente pra ele me dá asco. O fato de o pessoal defender falando 'mas foi consensual' quando EXISTE UMA QUOTE NO LIVRO dela falando 'não' e ele forçando e retrucando 'que se ela reclamar, ele vai amarrá-la mais forte' ou algo assim. O detalhe de ele stalkear a vida e os confins dela e seguir a menina ATÉ O ALASCA (acho que é Alasca? Não sei, mas é longe assim) porque deu pra ela um celular com rastreador. AMIGO, ISSO É PSICOPATIA, É AMOR NÃO. Pegava uma ordem de restrição de 500 metros ou um quilômetro caso um homem desses entrasse na minha vida, credo, satanás.
    Again, repito que seu texto foi brilhante. Eu dou mérito pra Sam, diretora do filme, e pros atores, porque eles pegaram uma história horrorosa e precisaram fazer o trabalho deles e "tentaram" arrumar o possível, ainda que não tenha como arrumar algo tão... argh. Eu sinto um troço no coração só de pensar que ainda faltam dois filmes (porque deus queira que não dividam o último em duas partes) e que vai ser um sucesso estrondoso e que tem tanta gente assistindo sem enxergar a relação abusiva que essa história esconde e está fazendo parecer uma história de amor. Apoio total aquela campanha de boicote a essa saga e repito que queria imprimir seu post pra sempre.
    Ótima crítica.

    Beijos,
    Denise Flaibam.
    http://blogsomaisum.blogspot.com.br/

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